caderno de notas
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Khadija Hayriya Aisha Dürrühsehvar, filha do último califa do Império Otomano, casou-se ainda muito jovem com o príncipe de Berar e passou a viver com o marido na Índia. Dentre os inúmeros presentes recebidos por conta da boda, a princesa ganhou um elefante ao qual carinhosamente apelidou de Boris. “Sempre fui fascinada pela literatura russa” explicou ela.
Aos poucos a princesa começou a ser notada pela imprensa ocidental, seu bom gosto para os saris - todos encomendados em Paris - e seu paquiderme de estimação fizeram dela uma exótica colunável em terras estrangeiras. Em sua primeira visita a Nova York, tamanha foi a comoção do high-society, que Khadija precisou estender sua viagem por quase um mês. Nesta ocasião, por insistência de uma famosa editora de moda, a princesa ordenou que trouxessem Boris aos Estados Unidos para uma sessão de fotos. Aliás, sempre que podia ela desfilava em cima do animal. O andar lento e robusto, mas ainda assim suave, do elefante conferiam à princesa uma gravidade que ela julgava condizente com sua altiva ascendência otomana.
Domesticado desde a tenra infância, Boris parecia sempre alheio à multidão e seus olhos tristonhos jamais se alteravam. Quando ele lacrimejava, o que era bastante comum, a Berar mandava que o levassem para um passeio na selva, “para matar as saudades da floresta” dizia ela.
Apesar de todo o zelo, durante uma longa estada da princesa em Londres, Boris fugiu dos jardins do palácio de verão, no qual vivia confinado. Numa corrida desabalada rumo à morte ele atirou-se de um imenso despenhadeiro não sem antes destruir duas lojas, seis automóveis, quatro postes de iluminação pública e infelizmente ferir oito pessoas e matar outras duas. Um capitão da guarda real, com medo de um furto e na esperança de conquistar a confiança dos príncipes, serrou as enormes presas de Boris e as enviou para Inglaterra junto de uma carta na qual explicava a situação. A princesa ficou horrorizada com a frieza do soldado que mutilara o elefante e mandou despedi-lo imediatamente, depois chorou copiosamente a morte de Boris. Khadija adiantou sua volta à Índia e providenciou ela mesma o enterro que foi realizado com pompa e circunstância nos jardins da propriedade real. Com as presas a princesa Berar fez fabulosos braceletes, “para me sentir mais perto do meu amado Boris”, justificou ela.
Meses mais tarde, em uma rápida passagem por Buenos Aires, ela foi fotografada na saída do Teatro Colón usando as pulseiras feitas a partir das presas do querido elefante. Os braceletes foram amplamente elogiadas na Vogue francesa e posteriormente na Vannity Fair. As joias de marfim, como era de se esperar, voltaram imediatamente à moda.
sábado, 31 de março de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
sexta-feira, 8 de julho de 2011
domingo, 26 de junho de 2011
"Olha o rato! Olha o rato! O rato!". Quando percebo um pequeno rato corre em direção à minha mochila e começa a subir por ela. Mexo as pernas, assustado, chutando a bolsa até que o rato cai e corre para debaixo do sofá. Atordoado, guardo o livro que estava lendo dentro da mochila, não sem antes sentir um pouco de nojo, e levanto o mais depressa que posso. Caminho para longe dali.
Cinema 24 de junho.
Os créditos de Midnight in Paris sobem. "Você gostou do filme?" pergunta o homem ao meu lado. "Gostei" digo. Ele replica, "Quanto anos você têm?". Que pergunta mais estranha para se fazer a um desconhecido no cinema. Respondo secamente, "23, Por que?". "Não, nada, é que eu tenho 60 e acho estranho alguém tão novo gostar desse filme...". Fico em silêncio. "O filme mexeu muito comigo..." continua ele "...falou ao meu coração. Sabe? Eu até chorei, você percebeu?". Por sorte os créditos acabam. Digo tchau e saio da sala o mais depressa possível.
Casa, 26 de junho.
Tomo nota sobre o desconhecido e o rato. Esses eventos se misturam na minha memória. Dessa vez não há para onde correr.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
“Vou ser sincero, antes de você chegar estava convencido de que lhe contaria tudo a respeito de Mavri Elià, nunca ninguém falou dela, e felizmente você também a ignora no seu livro... e dizia comigo mesmo que voltaria a equilibrar as coisas. Que tolo, como se tivesse que reequilibrar alguma coisa na vida... e afinal já não me agrada, Mavri Elià pertence apenas a Tristano, por que eu havia de dá-la a você, você não a merece... quando muito lhe direi algumas coisas essenciais, me limitarei aos chamados fatos. No entanto o que significam os fatos?... mas vamos então aos fatos... por exemplo, quando desapareceu... quando se findou, como diriam os que usam expressões tipo assiste-me o dever ou sentidos pêsames. Disparates, as pessoas não morrem, assiste-me o dever de informar, apenas ficam encantadas... como disse um escritor que você devia conhecer, ficamos encantados por aqueles que nos amam, os que nos amam muito muito muito, e pairamos no ar a meia altura como uns balõezinhos, mas ninguém nos vê, vêem-nos apenas aqueles que nos amam, mas aqueles que nos amam muito muito muito, e eles, erguendo-se na ponta dos pés, com um ligeiro impulso, um pulo de nada, agarram-nos pelas pernas que, entretanto, já são feitas e ar e puxam-nos para baixo, não nos largam, para que não recomecemos a voar, a levitar, mas dando-nos o braço seguram-nos mais rente ao chão, tão rente ao chão quanto eles próprios, como se não tivesse acontecido nada, tal como em certos faz-de-conta da vida, por conveniência social, para não se fazer feio à frente do dono do armarinho ou da tabacaria, que o conhece desde sempre e diria coisa estranha este sujeito passeando de braço dado com a mulher e ela a meia altura... E foi o que sucedeu a Tristano...”
(Tristano Morre, Antonio Tabucchi citando João Guimarães Rosa)
terça-feira, 15 de março de 2011
Ingredientes:
20g de fermento biológico fresco
2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de sal
1 ovo
2 colheres de sopa de manteiga
500ml de água morna
1kg (aproximadamente) de farinha de trigo
Modo de preparo:
Essa receita é bem simples. O primeiro passo é misturar o fermento biológico e o açúcar. Essa é minha parte favorita de todo o processo, pois o fermento reage e começa a derreter, parece até mágica! Numa segunda etapa é preciso acrescentar o sal, o ovo, a manteiga e a água morna, sempre misturando tudo, até obter uma espécie de caldo bem líquido e homogêneo. Por fim, acrescenta-se a farinha (cerca de 1kg). É preciso misturá-la com as mãos até que a massa desgrude completamente dos dedos. Depois basta sovar um pouco e deixar a massa descansando por cerca de uma hora, tempo suficiente para que ela cresça até dobrar de tamanho.
Uma dica: é bem divertido preparar a massa na manhã de sábado e enquanto ela cresce sair para comer uma feijoada e tomar uma cerveja no bar da esquina.
Quando a massa dobrar de tamanho é preciso trabalhá-la mais um pouco com as mãos e então moldar os pães. Depois basta colocá-los em assadeiras untadas (serão necessárias duas) e deixá-los crescer por mais meia hora ou até dobrarem de tamanho.
Outra dica: é bem engraçado moldar um dos pães até que ele se pareça com um elefante.
Por fim, quando os pães já tiverem dobrado de tamanho basta assá-los em forno médio.
Mais uma dica: o ideal é não exagerar na feijoada para ter condições de comer pelo menos um dos pães, de preferência o que tem formato de elefante, assim que ele sair do forno, com bastante manteiga.
Última dica: retire uma das assadeiras do forno antes dos pães estarem prontos, quando eles estiverem assados, mas ainda bem branquinhos por fora, cubra com papel filme e reserve para terminar de assar no dia seguinte. Assim é possível comê-los bem quentinhos, mais uma vez com muita manteiga, no café da manhã dominical.
sábado, 30 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
Se assim como eu você lesse no ônibus à caminho do trabalho, saberia que é preciso erguer os olhos algumas centenas de metros antes do ponto em que se vai saltar e não me olharia agora atônito diante das minhas parcas lágrimas. Se como eu você lesse no ônibus à caminho do trabalho, entenderia o que se passa, perdoaria minha pobre cara de choro e me deixaria saltar sem maiores delongas e saberia que é preciso deixar-me partir sem seu olhar de espanto, deixar-me seguir sozinho à caminho do trabalho.
(escrito entre 09h58 e 10h23)
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
domingo, 24 de janeiro de 2010
2010:
Finalmente tenho uma agenda de 2010, muito bonita por sinal. Foi um presente do Caetano. Ainda não escrevi nada nela, nem mesmo meu nome. Às vezes tenho a impressão de que 2010 ainda não começou. As coisas mudaram muito, muito nos últimos meses, mas ainda assim tudo parece "parado", como se minha vida estivesse em suspensão, esperando o momento certo de assentar. Espero que não demore muito.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Guimarães Rosa
domingo, 29 de novembro de 2009
Quando eu era pequeno minha mãe embrulhava caixinhas de fósforo com papel-camurça vermelho e uma fita dourada muito fina. Nós pendurávamos as caixinhas transformadas em mini-presentes numa árvore de natal velha, que deveria ser branca imitando a neve, mas já estava muito amarelada. Junto com elas pendurávamos também pequenas bolas coloridas, vermelhas, prateadas e azuis. Também tínhamos alguns enfeites de gesso, um pequeno papai noel, uma pomba, um sino e uma estrelinha amarela (certamente havia mais destes, mas não consigo lembrar dos outros). A árvore era pequena demais para tanta coisa. Na verdade não tenho certeza sobre as caixinhas de fósforo, talvez minha avó fizesse isso. Enfim, as caixinhas não são mais embrulhadas no começo de dezembro, aliás, com o advento do fogão elétrico, os fósforos, ao menos na minha casa, caíram em desuso.
(Post resgatado do blog antigo, escrito em dezembro de 2007)
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Vou acabar machucando minha boca você diz
seus lábios estão ressecados pelo frio
seus dentes encontram as pontas de pele
para arrancá-las
Antes que se pense a respeito
os dentes lá estão
E mesmo que se pense a respeito
os dentes lá estão
Há pouco você evitou um outro gesto irrefletido
quando sua mão e seu fôlego
estavam prontos a acender um cigarro
Sem um maço
e sem fogo
no bolso
o gesto não se completa
e ainda que o sabor da fumaça não mais o mova
por um instante a mão e o fôlego
são no seu corpo algo que falta
trata-se de um buraco
a morte difícil de um hábito
Meus lábios também se partem no frio
e também os mastigo
Não precisa esperar comigo você diz
passar frio à toa
o ônibus vem logo
ou demora pouco
posso esperar sozinho
Eu sorrio
não sei dizer nada
não saio daqui
necessito
(como sua mão de um cigarro que se tire do maço
e se prenda entre os dedos)
ver você entrar no ônibus olhar ao redor sentar-se
ver você
ainda
enquanto desaparece
(Caetano Gotardo)
domingo, 15 de novembro de 2009
Não me lembrava de tê-lo escrito.
Hoje saindo do SESC passei por algumas destas árvores cujos frutos são vagens secas, essas que em algum momento despencam e se abrem, retorcidas. Elas ficam lá, em plena calçada, esperando nossos pés. Os estalos fortes que produzem ao serem pisoteadas me agradam muito. Fazia tanto isso quando era criança, desviava da suposta linha reta que traça um caminho acertado e ia escolhendo as maiores vagens, as mais ressecadas, as que tinham o melhor som. Fiquei ali algum tempo pisando nos estalos secos. Uma alegria antiga. Tão boa. Queria convidar você para pisotear os sons comigo, mostrar quais vagens produzem o estalo mais alto, "as melhores" eu dizia nos meus seis anos. Você me faz muita falta, quero dividir com você o que de bonito me acontece.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
...
Há alguns anos assisti numa aula de História “O senhor das moscas”. Quando o filme acabou, não me lembro bem porque, eu e Rafaela fomos até a parte de trás da escola. Ela chorou copiosamente. Nunca entendi aquele choro. Os gritos de hoje a tarde me fizeram sentir a mesma coisa que senti naquela manhã. Continuo sem entender aquele choro, sem saber como agir.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Acabo de ler Carta a D. Abri o livro sem pretensão alguma, queria apenas folheá-lo e quando me dei conta já estava no meio do volume, completamente imerso.
Carta a D. é muito, muito bonito.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
Sem ligação aparente, ouvi "Último desejo" várias vezes nas últimas duas semanas. Essa música que eu acho tão bonita insiste em me acompanhar.
Nosso amor que eu não esqueço
e que teve seu começo
numa festa de São João,
morre hoje sem foguete,
sem retrato e sem bilhete,
sem luar e sem violão.
Perto de você me calo,
tudo penso, nada falo,
tenho medo de chorar;
nunca mais quero o seu beijo,
mas meu último desejo
você não pode negar.
Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não,
diga que você me adora
que você lamenta e chora
a nossa separação.
E às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é o botequim
e que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.
Noel Rosa
quinta-feira, 9 de julho de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Thy hand, belinda, darkness shades me.
On thy bosom let me rest.
More I would, but death invades me.
Death is now a welcome guest.
When I am laid in earth, may my wrongs create
No trouble in thy breast.
Remember me, but ah! forget my fate.
...
Ouvi essa ária de Purcell pela primeira vez sábado, na voz de Tiago Pinheiro. Irremediavelmente triste e incrivelmente linda. Depois descobri as versões de Jeff Buckley (uma deliciosa coincidência), Jessye Norman (impressionante!) e Janet Baker (talvez a mais triste de todas). Desde então não consigo parar de ouvir “Dido’s lament”.
terça-feira, 9 de junho de 2009
domingo, 10 de maio de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
23 de abril é dia de São Jorge.
No dia 23 de abril, há mais de 3 séculos, toda pessoa que compra um livro na Espanha ganha uma rosa.
Ontem foi dia 23 de abril.
Não escrevi aqui, nem tive um dia bonito. Ontem foi 23 de abril. Por algum motivo guardo essa data. Não sei explicar como, mas lembro desse dia como se ele fosse, de algum jeito, especial. Shakespeare, Cervantes, São Jorge, Rosas e Livros.
Ontem lembrei dos Goldberg , que o Caetano me apresentou alguns meses atrás. Passei algum tempo olhando as fotos da família ao longo dos anos. Os rostos da mãe e do filho mais velho me impressionam muito.
Agora os Goldberg também fazem parte do dia 23 de abril.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Minha alma não passou, ainda, para a imagem; caso contrário, eu já teria morrido, teria deixado (talvez) de ver Faustine para estar com ela numa visão que ninguém jamais recolherá.
Ao homem que, com base neste informe, invente uma máquina capaz de reunir as presenças desagregadas, farei uma súplica. Procure a Faustine e a mim, faça-me entrar no céu da consciência de Faustine. Será um ato piedoso.
terça-feira, 21 de abril de 2009
No primeiro dia fui buscá-lo ainda de manhã e ficamos aqui o dia todo. Saimos apenas quando já era noite. Batatas de alface e jogos de adivinhações! Dormimos quando já passava das cinco da manhã.
No segundo dia acordamos tarde. Escondidinho, milho, picolés de limão e doce de leite, pastéis. Voltamos para casa. Jogos de adivinhações! Quem sou eu?
No terceiro dia fomos ao centro. Mamãe natureza. Primeiro caminhamos pelos boques que eu não conhecia e depois pelos bosques que eu conhecia. Passamos o dia juntos em lugares muy bonitos. Fomos felizes.
Hoje eu o levei e ele partiu.
Saudade sem fundo, já.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
"Entre os muros da escola" é vivo e lindo.
"Valsa com Bashir" é triste, imensamente triste, e lindo.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Um pouco para Cláudia, Nivaldo e Bruna; outro tanto para Caetano e mais um tanto ainda para Rafaela e Juliana
Dia 29 voltei para São Carlos após passar mais de um mês em São Paulo. Um mês muito bonito. Pouco antes de pegar o ônibus me sentei no sofá da sala durante o fim da tarde. Escureceu depressa, não me lembro da luz caindo. Me lembro do rosto de Caetano. Me lembro de começar a sentir saudade antes mesmo de sair.
Hoje acordei muito cedo e me dei conta da luz alaranjada que entra todas as manhãs, suponho, pela minha janela. Feixes de luz laranja. Fui até a sacada e fiquei olhando o sol nascer. Foi muito, muito bonito ver o céu se tingindo de cores cada vez mais quentes. Havia muitas nuvens. Havia ainda mais cores que nuvens.
Pensei na felicidade desabando sobre os homens, quis chorar, ouvi mais uma vez essa canção que me acompanha já há muitos dias. Só saí quando a manhã estava clara.
Não consegui parar de pensar que estes dois momentos, tão curtos, têm uma ligação enorme. Dia 29 o sol caiu sem que eu me desse conta. Hoje o sol se levantou na minha frente. Quis dividir a imagem do céu cor-de-laranja com as pessoas que amo. Dia 29 eu não vi a luz sumir. Hoje eu a vi surgindo.
Apesar da saudade, é bom estar de volta.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
quando a gente acordar
quero te dizer que a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens.
Dia 25, meu aniversário, mais de uma semana atrás, ganhei essa música de presente. Caetano colocou-a para que ouvíssemos juntos. Foi a primeira música dos meus 21 anos. Linda, linda, uma promessa tão grande de felicidade, tão intensa.
Chorei muito, mas não foi triste, foi feliz, muito feliz.
Não me lembro de ter agradecido o presente, não como deveria. 2009 começou muito bonito, mas no dia 25 meu ano começou de novo, com essa canção de Tom Zé, melhor ainda.
Na hora ninguém escapa
de baixo da cama ninguém se esconde
e a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens vai
desabar sobre os homens.
Menina, ela mete medo
menina, ela fecha a roda
menina, não tem saída
de cima, de banda ou de lado.
Menina, olhe pra frente
menina, todo cuidado
não queira dormir no ponto
segure o jogo
atenção (de manhã).
Menina a felicidade
é cheia de graça
é cheia de lata
é cheia de praça
é cheia de traça.
Menina, a felicidade
é cheia de pano,
é cheia de pena
é cheia de sino
é cheia de sono.
Menina, a felicidade
é cheia de ano
é cheia de Eno
é cheia de hino
é cheia de ONU.
Menina, a felicidade
é cheia de an
é cheia de en
é cheia de in
é cheia de on.
Menina, a felicidade
é cheia de a
é cheia de e
é cheia de i
é cheia de o.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
domingo, 22 de março de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
quarta-feira, 4 de março de 2009
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Alguns Toureiros
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
João Cabral de Melo Neto
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
I
Saio do meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez, como a camisa
vazia, que despi.
...
V
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu,
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louco
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Ontem vi a Judy Garland na TV. Foi muito rápido, eu estava zapeando e de repente encontrei aqueles olhos enormes num canal qualquer cantando uma canção que eu não conheço. Ela parecia tão frágil, tão exposta, tão triste. Era uma canção muito triste. Sua voz se espalhou pela sala e a minha casa pareceu menos silenciosa que de costume. Ela cantou por alguns minutos e passou os braços em volta do corpo como costumava fazer, depois se despediu antes que sua imagem desse lugar a outra, mais outra e outra.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Havia me esquecido sobre como gosto de algumas coisas daqui, principalmente do relevo, das montanhas que cercam a cidade e se espalham como ondas no mar, ondas nos “mares de morros”. Não me lembrava mais do céu daqui nem da cor das folhas da árvore que fica em frente à minha casa. Essa casa que tem um cheiro tão especial, um cheiro bom que eu só percebo nos primeiros dias, antes de me acostumar e esquecê-lo mais uma vez.



