quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


A elefanta Topsy pertencia a um circo de Coney Island e ao longo de sua breve vida matou três homens, incluindo seu adestrador. As autoridades locais, temendo novas tragédias, ordenaram sua execução. Thomas Edison ficou encarregado da morte por eletrochoque (método utilizado para a execução humana desde 1890). 

Topsy foi executada em 1903 aos 28 anos. Sua morte foi filmada pelo próprio Edison e desde então se repete a cada vez que estas imagens são vistas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


Khadija Hayriya Aisha Dürrühsehvar, filha do último califa do Império Otomano, casou-se ainda muito jovem com o príncipe de Berar e passou a viver com o marido na Índia. Dentre os inúmeros presentes recebidos por conta da boda, a princesa ganhou um elefante ao qual carinhosamente apelidou de Boris. “Sempre fui fascinada pela literatura russa” explicou ela.

Aos poucos a princesa começou a ser notada pela imprensa ocidental, seu bom gosto para os saris - todos encomendados em Paris - e seu paquiderme de estimação fizeram dela uma exótica colunável em terras estrangeiras. Em sua primeira visita a Nova York, tamanha foi a comoção do high-society, que Khadija precisou estender sua viagem por quase um mês. Nesta ocasião, por insistência de uma famosa editora de moda, a princesa ordenou que trouxessem Boris aos Estados Unidos para uma sessão de fotos. Aliás, sempre que podia ela desfilava em cima do animal. O andar lento e robusto, mas ainda assim suave, do elefante conferiam à princesa uma gravidade que ela julgava condizente com sua altiva ascendência otomana.

Domesticado desde a tenra infância, Boris parecia sempre alheio à multidão e seus olhos tristonhos jamais se alteravam. Quando ele lacrimejava, o que era bastante comum, a Berar mandava que o levassem para um passeio na selva, “para matar as saudades da floresta” dizia ela.

Apesar de todo o zelo, durante uma longa estada da princesa em Londres, Boris fugiu dos jardins do palácio de verão, no qual vivia confinado. Numa corrida desabalada rumo à morte ele atirou-se de um imenso despenhadeiro não sem antes destruir duas lojas, seis automóveis, quatro postes de iluminação pública e infelizmente ferir oito pessoas e matar outras duas. Um capitão da guarda real, com medo de um furto e na esperança de conquistar a confiança dos príncipes, serrou as enormes presas de Boris e as enviou para Inglaterra junto de uma carta na qual explicava a situação. A princesa ficou horrorizada com a frieza do soldado que mutilara o elefante e mandou despedi-lo imediatamente, depois chorou copiosamente a morte de Boris. Khadija adiantou sua volta à Índia e providenciou ela mesma o enterro que foi realizado com pompa e circunstância nos jardins da propriedade real. Com as presas a princesa Berar fez fabulosos braceletes, “para me sentir mais perto do meu amado Boris”, justificou ela.

Meses mais tarde, em uma rápida passagem por Buenos Aires, ela foi fotografada na saída do Teatro Colón usando as pulseiras feitas a partir das presas do querido elefante. Os braceletes foram amplamente elogiadas na Vogue francesa e posteriormente na Vannity Fair. As joias de marfim, como era de se esperar, voltaram imediatamente à moda.

sábado, 31 de março de 2012

Um grande hipopótamo de borracha tem me visitado todas as tardes. Ele toma chá, mantém um blog no qual escreve textos pouco criativos e almeja ser artística plástico. Em nosso último encontro o descomunal mamífero de couro sintético anunciou que pretende pintar murais neo-abstracionistas. Mas com essas imensas patas de borracha fica difícil pintar, não? Sim, muito... Mas darei um jeito! Pobre animal, sua empreitada artística já me parece fracassada. Mudo rapidamente de assunto e iniciamos uma agradável conversa sobre o último livro do Vila-Matas. O chá esfria antes que o tema se esgote então saímos para um café. Na calçada da rua do Carmo ele me oferece um cigarro. Não obrigado, eu parei. Que sorte a sua, diz ele enquanto acende com suas enormes patas desengonçadas um cigarro de palha mal enrolado. Com essas patas é impossível desenvolver qualquer atividade artística que exija alguma coordenação motora fina, penso eu. Ele traga e suas gigantescas bochechas emborrachadas se enchem de fumaça. Ele deixa o cigarro cair. Os transeuntes observam meu desajeitado amigo com um misto de pena e escárnio. Pobre hipopótamo, em breve será mais um artista frustrado.

terça-feira, 27 de março de 2012

A mini-vaca tem um coração grande demais para o seu pequeno corpo e por isso irá morrer em breve. Ela certamente sabe disso. Não há como não sentir a enormidade do músculo cardíaco comprimindo-se contra os pulmões, as costelas e os três estômagos. Apesar da iminência da morte ela parece plenamente satisfeita ruminando. Na verdade, seus olhos castanhos de mini-vaca condenada à morte lenta e dolorosa estão tranquilos. Mesmo assim planejo resgatá-la da fazenda de mini-animais e fugir rumo à algum país distante. Ela seria muito mais feliz vivendo fora dos cercados. Pense na alegria da mini-vaca correndo livremente por uma grande planície de capim verde e fresco. Essa certamente seria a maneira mais digna de uma mini-vaca cujo coração está ficando grande demais para seu diminuto corpo terminar seus dias. Quais países distantes têm grandes planícies? A mini-vaca suportaria um inverno rigoroso? As planícies russas são cobertas por capim durante o verão, não? A mini-vaca muge e eu sinto pena de mim mesmo. Ela não quer a minha ajuda nem deseja ser resgatada da fazenda repleta de mini-aberrações genéticas. A mini-vaca possui um coração enorme que em breve irá esmagar metade de seus órgãos internos e a última coisa da qual ela precisa é da minha compaixão. Ela precisa apenas de mais um punhado de capim.

terça-feira, 20 de março de 2012

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O que se move.

domingo, 26 de junho de 2011

SESC Pompéia, 19 de junho.
"Olha o rato! Olha o rato! O rato!". Quando percebo um pequeno rato corre em direção à minha mochila e começa a subir por ela. Mexo as pernas, assustado, chutando a bolsa até que o rato cai e corre para debaixo do sofá. Atordoado, guardo o livro que estava lendo dentro da mochila, não sem antes sentir um pouco de nojo, e levanto o mais depressa que posso. Caminho para longe dali.

Cinema 24 de junho.
Os créditos de Midnight in Paris sobem. "Você gostou do filme?" pergunta o homem ao meu lado. "Gostei" digo. Ele replica, "Quanto anos você têm?". Que pergunta mais estranha para se fazer a um desconhecido no cinema. Respondo secamente, "23, Por que?". "Não, nada, é que eu tenho 60 e acho estranho alguém tão novo gostar desse filme...". Fico em silêncio. "O filme mexeu muito comigo..." continua ele "...falou ao meu coração. Sabe? Eu até chorei, você percebeu?". Por sorte os créditos acabam. Digo tchau e saio da sala o mais depressa possível.

Casa, 26 de junho.
Tomo nota sobre o desconhecido e o rato. Esses eventos se misturam na minha memória. Dessa vez não há para onde correr.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Às vezes, tomando sorvete, começo a pegar colheradas cada vez menores com medo de que o pote acabe. Quando gosto muito de um livro faço a mesma coisa, passo a racionar as porções, contar as páginas, reler os parágrafos mais bonitos, enfim, faço de tudo para evitar a última linha. Isso é muito difícil, porque em geral quando gosto demais de um livro quero seguir lendo até alcançar a última página. Com Tristano Morre do Antonio Tabucchi tem sido assim, quero ler mais e ao mesmo tempo não quero que ele acabe de jeito nenhum. Mas hoje o Tabucchi foi muito generoso comigo, além de repetir de maneira idêntica um trecho lindo do Está ficando tarde demais ele me presenteou com esse parágrafo maravilhoso que eu já reli muitas, muitas vezes e que até agora conseguiu evitar que eu siga rumo à última página.


“Vou ser sincero, antes de você chegar estava convencido de que lhe contaria tudo a respeito de Mavri Elià, nunca ninguém falou dela, e felizmente você também a ignora no seu livro... e dizia comigo mesmo que voltaria a equilibrar as coisas. Que tolo, como se tivesse que reequilibrar alguma coisa na vida... e afinal já não me agrada, Mavri Elià pertence apenas a Tristano, por que eu havia de dá-la a você, você não a merece... quando muito lhe direi algumas coisas essenciais, me limitarei aos chamados fatos. No entanto o que significam os fatos?... mas vamos então aos fatos... por exemplo, quando desapareceu... quando se findou, como diriam os que usam expressões tipo assiste-me o dever ou sentidos pêsames. Disparates, as pessoas não morrem, assiste-me o dever de informar, apenas ficam encantadas... como disse um escritor que você devia conhecer, ficamos encantados por aqueles que nos amam, os que nos amam muito muito muito, e pairamos no ar a meia altura como uns balõezinhos, mas ninguém nos vê, vêem-nos apenas aqueles que nos amam, mas aqueles que nos amam muito muito muito, e eles, erguendo-se na ponta dos pés, com um ligeiro impulso, um pulo de nada, agarram-nos pelas pernas que, entretanto, já são feitas e ar e puxam-nos para baixo, não nos largam, para que não recomecemos a voar, a levitar, mas dando-nos o braço seguram-nos mais rente ao chão, tão rente ao chão quanto eles próprios, como se não tivesse acontecido nada, tal como em certos faz-de-conta da vida, por conveniência social, para não se fazer feio à frente do dono do armarinho ou da tabacaria, que o conhece desde sempre e diria coisa estranha este sujeito passeando de braço dado com a mulher e ela a meia altura... E foi o que sucedeu a Tristano...”

(Tristano Morre, Antonio Tabucchi citando João Guimarães Rosa)

terça-feira, 15 de março de 2011

Receita de pão caseiro para um sábado nublado:


Ingredientes:

20g de fermento biológico fresco
2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de sal
1 ovo
2 colheres de sopa de manteiga
500ml de água morna
1kg (aproximadamente) de farinha de trigo

Modo de preparo:

Essa receita é bem simples. O primeiro passo é misturar o fermento biológico e o açúcar. Essa é minha parte favorita de todo o processo, pois o fermento reage e começa a derreter, parece até mágica! Numa segunda etapa é preciso acrescentar o sal, o ovo, a manteiga e a água morna, sempre misturando tudo, até obter uma espécie de caldo bem líquido e homogêneo. Por fim, acrescenta-se a farinha (cerca de 1kg). É preciso misturá-la com as mãos até que a massa desgrude completamente dos dedos. Depois basta sovar um pouco e deixar a massa descansando por cerca de uma hora, tempo suficiente para que ela cresça até dobrar de tamanho.

Uma dica: é bem divertido preparar a massa na manhã de sábado e enquanto ela cresce sair para comer uma feijoada e tomar uma cerveja no bar da esquina.

Quando a massa dobrar de tamanho é preciso trabalhá-la mais um pouco com as mãos e então moldar os pães. Depois basta colocá-los em assadeiras untadas (serão necessárias duas) e deixá-los crescer por mais meia hora ou até dobrarem de tamanho.

Outra dica: é bem engraçado moldar um dos pães até que ele se pareça com um elefante.

Por fim, quando os pães já tiverem dobrado de tamanho basta assá-los em forno médio.

Mais uma dica: o ideal é não exagerar na feijoada para ter condições de comer pelo menos um dos pães, de preferência o que tem formato de elefante, assim que ele sair do forno, com bastante manteiga.

Última dica: retire uma das assadeiras do forno antes dos pães estarem prontos, quando eles estiverem assados, mas ainda bem branquinhos por fora, cubra com papel filme e reserve para terminar de assar no dia seguinte. Assim é possível comê-los bem quentinhos, mais uma vez com muita manteiga, no café da manhã dominical.

sábado, 30 de outubro de 2010

Meu avô me disse hoje que precisa trocar o telhado da casa que construiu há quase quarenta anos e na qual vive desde então. "Durei mais que o telhado" ele me disse, "não esperava por isso..." e então caiu na gargalhada.

Essa casa, para onde ele se mudou quando já tinha oito filhos e na qual mora sozinho desde que minha avó morreu, guarda algumas raridades, dentre as mais interessantes: o único retrato que conheço dos dos pais dele - meus bisavós, uma máquina de lavar de madeira antiqüíssima (que ainda funciona!) e um armário de cozinha lindo que já deve ter  mais de sessenta anos.




Por algum motivo hoje, depois da história do telhado que precisa ser trocado, essas coisas que sempre estiveram lá chamaram minha atenção mais do que costume. Então, quase por culpa de não tê-las notado antes, resolvi postá-las aqui.
  

sábado, 9 de outubro de 2010

Hoje, enquanto fazia um bolo de cenoura, me senti a minha avó. Não a caiçara morena e desbocada, mas sim a outra, a minha avó mineira, filha de portugueses, que fazia queijo fresco e biscoito de polvilho. Sempre tive a impressão de que essa avó não gostava muito de mim, aliás, acho que ela não gostava muito de ninguém. Não que isso constituísse um defeito, era apenas algo estranho, ainda mais se comparado ao esmero que ela demonstrava na cozinha sempre que algum de nós a visitava. Minha avó era baixa, gorda, tinha olhos verdes muito vivos e estava sempre com as mãos ocupadas, limpando ou cozinhando. Quando vi pela primeira vez uma foto da Adília Lopes achei que ela se parecia com essa minha avó, exceto pelo fato de uma ser feia e a outra bonita. Essa semelhança me levou a pensar que talvez pudesse me sentir Adília Lopes, afinal eu tive certeza de estar me sentindo a minha avó enquanto peneirava a farinha. Imbuído dessa esperança, coloquei o bolo no forno e corri para escrever esse post, mas desde que parei aqui não consegui me sentir mais ninguém além de mim.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Se assim como eu você lesse no ônibus à caminho do trabalho, saberia que é preciso erguer os olhos algumas centenas de metros antes do ponto em que se vai saltar. Saberia que mesmo que seja possível vencer mais um ou dois parágrafos é preciso parar antes de se alcançar o destino para que nenhuma idéia importante seja, porventura, cortada num sobressalto. Entenderia que é preciso interromper-se no momento exato, na frase certa, para depois preencher o resto do dia com pequenas conjecturas acerca da continuação da história. 

Se assim como eu você lesse no ônibus à caminho do trabalho, saberia que é preciso erguer os olhos algumas centenas de metros antes do ponto em que se vai saltar e não me olharia agora atônito diante das minhas parcas lágrimas. Se como eu você lesse no ônibus à caminho do trabalho, entenderia o que se passa, perdoaria minha pobre cara de choro e me deixaria saltar sem maiores delongas e saberia que é preciso deixar-me partir sem seu olhar de espanto, deixar-me seguir sozinho à caminho do trabalho. 



(escrito entre 09h58 e 10h23)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Enquanto você não está eu folheio seus cadernos escondido e sinto vergonha por lê-los sem que você saiba. Peço desculpas em silêncio. Nos cadernos há poemas incompletos, rabiscados e reescritos, eu sei que eles já estão prontos agora e me agrada descobrir seus caminhos. Sinto vergonha por ler seus cadernos escondido. Peço desculpas em silêncio. Não quero invadir o espaço que não me pertence. Está chovendo agora e os raios são fortes, mas não mais do que o habitual, como de costume eu tiro os eletrônicos da tomada. A cadeira do dentista sempre me assusta. Você foi ao dentista e talvez a chuva tenha molhado seus pés no caminho. Por que diabos li os seus cadernos? Entre eles havia uma folha que eu amassei sem querer, nela estava escrito seu último poema, também rasurado. Eu o li e desamassei a folha com cuidado, depois deitei na cama que é sua e esperei o cheiro da chuva se espalhar pelo quarto. Tive vontade de escrever. Se eu tivesse anotado tudo isso enquanto ainda estava deitado esse texto certamente seria melhor.
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Escrito entre ontem, 22 de fevereiro, e hoje.

domingo, 24 de janeiro de 2010

...
2010:
Finalmente tenho uma agenda de 2010, muito bonita por sinal. Foi um presente do Caetano. Ainda não escrevi nada nela, nem mesmo meu nome. Às vezes tenho a impressão de que 2010 ainda não começou. As coisas mudaram muito, muito nos últimos meses, mas ainda assim tudo parece "parado", como se minha vida estivesse em suspensão, esperando o momento certo de assentar. Espero que não demore muito.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

...
Ano novo, visual novo!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo, seu sentimento, uns com os outros que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucessido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto.

Guimarães Rosa

domingo, 29 de novembro de 2009

Para mim, o presente é para sempre, e o eterno está sempre mudando, fluindo, se dissolvendo. Este segundo é vida. E quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo. Tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça... invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação mas não o bastante. Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O movimento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some, contínua areia movediça. E eu não quero morrer.

Sylvia Plath
Sobre esquecer e lembrar


Quando eu era pequeno minha mãe embrulhava caixinhas de fósforo com papel-camurça vermelho e uma fita dourada muito fina. Nós pendurávamos as caixinhas transformadas em mini-presentes numa árvore de natal velha, que deveria ser branca imitando a neve, mas já estava muito amarelada. Junto com elas pendurávamos também pequenas bolas coloridas, vermelhas, prateadas e azuis. Também tínhamos alguns enfeites de gesso, um pequeno papai noel, uma pomba, um sino e uma estrelinha amarela (certamente havia mais destes, mas não consigo lembrar dos outros). A árvore era pequena demais para tanta coisa. Na verdade não tenho certeza sobre as caixinhas de fósforo, talvez minha avó fizesse isso. Enfim, as caixinhas não são mais embrulhadas no começo de dezembro, aliás, com o advento do fogão elétrico, os fósforos, ao menos na minha casa, caíram em desuso.

(Post resgatado do blog antigo, escrito em dezembro de 2007)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Motor

Vou acabar machucando minha boca você diz
seus lábios estão ressecados pelo frio
seus dentes encontram as pontas de pele
para arrancá-las

Antes que se pense a respeito
os dentes lá estão

E mesmo que se pense a respeito
os dentes lá estão

Há pouco você evitou um outro gesto irrefletido
quando sua mão e seu fôlego
estavam prontos a acender um cigarro

Sem um maço
e sem fogo
no bolso
o gesto não se completa

e ainda que o sabor da fumaça não mais o mova
por um instante a mão e o fôlego
são no seu corpo algo que falta

trata-se de um buraco

a morte difícil de um hábito

Meus lábios também se partem no frio
e também os mastigo

Não precisa esperar comigo você diz
passar frio à toa
o ônibus vem logo
ou demora pouco
posso esperar sozinho

Eu sorrio
não sei dizer nada
não saio daqui
necessito
(como sua mão de um cigarro que se tire do maço
e se prenda entre os dedos)
ver você entrar no ônibus olhar ao redor sentar-se
ver você
ainda
enquanto desaparece

(Caetano Gotardo)

domingo, 15 de novembro de 2009

Estava relendo e-mails antigos quando encontrei esse trecho.

Não me lembrava de tê-lo escrito.

Hoje saindo do SESC passei por algumas destas árvores cujos frutos são vagens secas, essas que em algum momento despencam e se abrem, retorcidas. Elas ficam lá, em plena calçada, esperando nossos pés. Os estalos fortes que produzem ao serem pisoteadas me agradam muito. Fazia tanto isso quando era criança, desviava da suposta linha reta que traça um caminho acertado e ia escolhendo as maiores vagens, as mais ressecadas, as que tinham o melhor som. Fiquei ali algum tempo pisando nos estalos secos. Uma alegria antiga. Tão boa. Queria convidar você para pisotear os sons comigo, mostrar quais vagens produzem o estalo mais alto, "as melhores" eu dizia nos meus seis anos. Você me faz muita falta, quero dividir com você o que de bonito me acontece.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As outras crianças apontaram para o menino que não podia caminhar nem falar direito e começaram a imitá-lo. Distorciam a voz e mancavam de maneira forçada. Tudo isso porque ele estava andando depressa demais, ou então porque mais cedo ele havia chorado com medo do escuro. Não consigo ter certeza. As piadas aumentaram num frenesi assustador até que o menino, André, esse era o seu nome, voltou a chorar. Então eles irromperam em gritos. André chorava cada vez mais. Quis chorar também, quase em solidariedade, mas não tive coragem, não soube como agir. As professoras constrangidas fingiam que a situação não estava acontecendo e caminhavam apressadas conduzindo a turma rumo à saída. Tive medo daquelas crianças, de mim, do que podemos ser. Segui pela tarde com o choro engasgado e a imagem de André. Segui ouvindo os gritos.

...

Há alguns anos assisti numa aula de História “O senhor das moscas”. Quando o filme acabou, não me lembro bem porque, eu e Rafaela fomos até a parte de trás da escola. Ela chorou copiosamente. Nunca entendi aquele choro. Os gritos de hoje a tarde me fizeram sentir a mesma coisa que senti naquela manhã. Continuo sem entender aquele choro, sem saber como agir.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tentei, mais de uma vez, escrever sobre O menino japonês, uma empreitada frustrada. Gosto muito do filme, mas não consigo registrar minhas opiniões sem parecer pedante ou distante demais. Não consigo explicar o que se passa aqui dentro quando assisto o curta. O menino japonês me comove muito. O menino japonês é lindo.


Texto escrito entre os dias 16 e 17 de setembro. Pretendia melhorá-lo, quem sabe até escrever mais, mas não consegui. Preferi mantê-lo assim, uma forma de guardar a impressão da sessão aqui em São Carlos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009


Eu me escondi debaixo da sua varanda porque eu te amo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Você está prestes a fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fudo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

Acabo de ler Carta a D. Abri o livro sem pretensão alguma, queria apenas folheá-lo e quando me dei conta já estava no meio do volume, completamente imerso.

Carta a D. é muito, muito bonito.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vivendo o Em casa.

sábado, 11 de julho de 2009

Vivendo a expectativa do Em casa.
Vez ou outra algumas canções me perseguem.

Sem ligação aparente, ouvi "Último desejo" várias vezes nas últimas duas semanas. Essa música que eu acho tão bonita insiste em me acompanhar.

Nosso amor que eu não esqueço
e que teve seu começo
numa festa de São João,
morre hoje sem foguete,
sem retrato e sem bilhete,
sem luar e sem violão.

Perto de você me calo,
tudo penso, nada falo,
tenho medo de chorar;
nunca mais quero o seu beijo,
mas meu último desejo
você não pode negar.

Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não,
diga que você me adora
que você lamenta e chora
a nossa separação.

E às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é o botequim
e que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

Noel Rosa

quinta-feira, 9 de julho de 2009

"sete nãos, sete mil sins"

Uma das coisas mais bonitas dos últimos dias.
Sim! Eu tenho um blog!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ao ser abandonada por Enéias, Dido apunhalou o próprio peito e se atirou numa pira em chamas.
Dido’s lament

Thy hand, belinda, darkness shades me.
On thy bosom let me rest.
More I would, but death invades me.
Death is now a welcome guest.

When I am laid in earth, may my wrongs create
No trouble in thy breast.
Remember me, but ah! forget my fate.

...

Ouvi essa ária de Purcell pela primeira vez sábado, na voz de Tiago Pinheiro. Irremediavelmente triste e incrivelmente linda. Depois descobri as versões de Jeff Buckley (uma deliciosa coincidência), Jessye Norman (impressionante!) e Janet Baker (talvez a mais triste de todas). Desde então não consigo parar de ouvir “Dido’s lament”.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Quero escrever mais aqui, mas os dias estão cada vez mais tumultuados. Sobra pouco tempo e eu quase sempre estou cansado.
Estive em Monte Sião nesse fim de semana. Tudo lá segue bem. Nessa época do ano os dias são sempre um pouco quentes e secos por causa do sol, mas à noite faz bastante frio. Gosto muito disso.

domingo, 10 de maio de 2009

It's very difficult to keep the line between the past and the present.

Little Edie
Grey Gardens

domingo, 26 de abril de 2009

Ontem revi "Milk" no Cine São Carlos, uma sala de cinema muito antiga e interessante. O filme é lindo (já escrevi isso aqui), vivo e intenso. Sean Penn está incrível, apaixonante. O uso do material de arquivo me intriga do início ao fim. Chorei mais uma vez. Lembro dos discursos de Penn e Dustin Lance Black no Oscar 2009. Gosto muito de "Milk".

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Em 23 de abril de 1616, gosto de pensar que foi quase no mesmo instante, morreram Cervantes e Shakespeare.

23 de abril é dia de São Jorge.

No dia 23 de abril, há mais de 3 séculos, toda pessoa que compra um livro na Espanha ganha uma rosa.

Ontem foi dia 23 de abril.

Não escrevi aqui, nem tive um dia bonito. Ontem foi 23 de abril. Por algum motivo guardo essa data. Não sei explicar como, mas lembro desse dia como se ele fosse, de algum jeito, especial. Shakespeare, Cervantes, São Jorge, Rosas e Livros.

Ontem lembrei dos Goldberg , que o Caetano me apresentou alguns meses atrás. Passei algum tempo olhando as fotos da família ao longo dos anos. Os rostos da mãe e do filho mais velho me impressionam muito.

Agora os Goldberg também fazem parte do dia 23 de abril.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um homem que escolhe morrer para estar ao lado da imagem da mulher que ama. Um homem que deixa a vida para se transformar numa projeção de si mesmo e passar assim a eternidade ao lado de Faustine. Um homem que estuda cada movimento, cada gesto, cada palavra, para se inserir com perfeição na repetição eterna, mesmo sabendo que Faustine jamais terá consciência de sua existência. Um amor enorme. Unilateral. Incocebível. Verdadeiro.

Minha alma não passou, ainda, para a imagem; caso contrário, eu já teria morrido, teria deixado (talvez) de ver Faustine para estar com ela numa visão que ninguém jamais recolherá.

Ao homem que, com base neste informe, invente uma máquina capaz de reunir as presenças desagregadas, farei uma súplica. Procure a Faustine e a mim, faça-me entrar no céu da consciência de Faustine. Será um ato piedoso.

(A invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares)

terça-feira, 21 de abril de 2009

(Lacônico, mas sincero)

No primeiro dia fui buscá-lo ainda de manhã e ficamos aqui o dia todo. Saimos apenas quando já era noite. Batatas de alface e jogos de adivinhações! Dormimos quando já passava das cinco da manhã.

No segundo dia acordamos tarde. Escondidinho, milho, picolés de limão e doce de leite, pastéis. Voltamos para casa. Jogos de adivinhações! Quem sou eu?

No terceiro dia fomos ao centro. Mamãe natureza. Primeiro caminhamos pelos boques que eu não conhecia e depois pelos bosques que eu conhecia. Passamos o dia juntos em lugares muy bonitos. Fomos felizes.

Hoje eu o levei e ele partiu.

Saudade sem fundo, já.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Eu vou ralando o coco, morena,
o coco até aqui.
Eu vou ralando o coco, morena,
o coco do Ouricuri.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Acordei hoje com "Estrela Miúda" na cabeça, mais precisamente com a história de João do Vale, que escreveu essa música e a ouvia todos os dia no rádio na voz de Marlene enquanto trabalhava como ajudante de pedreiro. Conheço também uma gravação de Bethânia, muito bonita. Penso na estrela míuda que alumeia o mar, alumia a terra e o mar, pra meu bem vir me buscar, há mais de um mês que ela não, que ela não vem me olhar.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Há alguns dias vi "Entre os muros da escola" e pensei em escrever aqui sobre como tinha gostado do filme, me esqueci. Ontem vi "Valsa com Bashir", outro filme do qual gostei muito. Dessa vez não deixei passar.

"Entre os muros da escola" é vivo e lindo.

"Valsa com Bashir" é triste, imensamente triste, e lindo.
Hoje é 07 de abril, daqui a uma semana será dia 14.
Penso muito no peixe na água.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A felicidade

Um pouco para Cláudia, Nivaldo e Bruna; outro tanto para Caetano e mais um tanto ainda para Rafaela e Juliana

Dia 29 voltei para São Carlos após passar mais de um mês em São Paulo. Um mês muito bonito. Pouco antes de pegar o ônibus me sentei no sofá da sala durante o fim da tarde. Escureceu depressa, não me lembro da luz caindo. Me lembro do rosto de Caetano. Me lembro de começar a sentir saudade antes mesmo de sair.

Hoje acordei muito cedo e me dei conta da luz alaranjada que entra todas as manhãs, suponho, pela minha janela. Feixes de luz laranja. Fui até a sacada e fiquei olhando o sol nascer. Foi muito, muito bonito ver o céu se tingindo de cores cada vez mais quentes. Havia muitas nuvens. Havia ainda mais cores que nuvens.

Pensei na felicidade desabando sobre os homens, quis chorar, ouvi mais uma vez essa canção que me acompanha já há muitos dias. Só saí quando a manhã estava clara.

Não consegui parar de pensar que estes dois momentos, tão curtos, têm uma ligação enorme. Dia 29 o sol caiu sem que eu me desse conta. Hoje o sol se levantou na minha frente. Quis dividir a imagem do céu cor-de-laranja com as pessoas que amo. Dia 29 eu não vi a luz sumir. Hoje eu a vi surgindo.

Apesar da saudade, é bom estar de volta.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Menina , amanhã de manhã
quando a gente acordar
quero te dizer que a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens.

Dia 25, meu aniversário, mais de uma semana atrás, ganhei essa música de presente. Caetano colocou-a para que ouvíssemos juntos. Foi a primeira música dos meus 21 anos. Linda, linda, uma promessa tão grande de felicidade, tão intensa.

Chorei muito, mas não foi triste, foi feliz, muito feliz.

Não me lembro de ter agradecido o presente, não como deveria. 2009 começou muito bonito, mas no dia 25 meu ano começou de novo, com essa canção de Tom Zé, melhor ainda.

Na hora ninguém escapa
de baixo da cama ninguém se esconde
e a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens vai
desabar sobre os homens.

Menina, ela mete medo
menina, ela fecha a roda
menina, não tem saída
de cima, de banda ou de lado.

Menina, olhe pra frente
menina, todo cuidado
não queira dormir no ponto
segure o jogo
atenção (de manhã).

Menina a felicidade
é cheia de graça
é cheia de lata
é cheia de praça
é cheia de traça.

Menina, a felicidade
é cheia de pano,
é cheia de pena
é cheia de sino
é cheia de sono.

Menina, a felicidade
é cheia de ano
é cheia de Eno
é cheia de hino
é cheia de ONU.

Menina, a felicidade
é cheia de an
é cheia de en
é cheia de in
é cheia de on.

Menina, a felicidade
é cheia de a
é cheia de e
é cheia de i
é cheia de o.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Do orkut:

Sorte de hoje: Hoje você vai ver um biscoito da sorte que você nunca viu antes.

Emblemático, não?

domingo, 22 de março de 2009

"...naquela época meu corpo era escultural, eu era boazudérrima. Hoje em dia é extravagante, mas é gostoso".

Vaca Profana, acordei com essa música na cabeça e logo de manhã ouvi a versão de Gal Gosta, repleta de guitarras e teclados oitentistas. Mais tarde ouvi-a também na voz de Caetano Veloso, seu compositor, acompanhado apenas por um violão e pelos aplausos da platéia. Lembrei da imagem de Laura de Vison, enormíssima, com seus seios de fora dublando essa canção como se tivesse sido composta para ela. Agora há pouco pensei em como teria gostado de conhecê-la pessoalmente. Laura de Vison era extravagante e linda.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Certa vez me disseram que quebrar copos em excesso significava alguma coisa. Não me lembro bem o que, mas sei que sempre detestei quebrar as louças da casa. É como se os cacos fossem um sinal de azar inevitável. 

Nos últimos dias quebrei mais coisas que em todo o ano passado. É fato também que o SuperBonder deu jeito em alguns dos estragos, chegou inclusive a devolver para o pequeno anjo sua cabeça, decepada havia já algum tempo, mas ainda assim me sinto mal. Irremediável.  
E que inferno astral!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dizem os especialistas que estou no meio de um inferno astral. 
Um bom prólogo, pena que ainda lhe falte a história.

Sibilia de Cuma pediu aos deuses a imortalidade e eles a concederam. Pelos séculos permaneceu viva, encolhendo ano após ano, até não ser maior que um pequeno pardal, sem jamais esquecer coisa alguma. Sobre ela T.S.Eliot escreveu, "Porque eu vi com meus olhos a Sibila de Cuma presa numa gaiola e as crianças perguntavam-lhe: O que tu queres Sibila? Ela respondia: Quero morrer". 
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Milk" é lindo!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Alguns Toureiros

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Passei os últimos dias lendo João Cabral de Melo Neto e voltei inúmeras vezes a dois poemas, "Tecendo a manhã" e "Psicologia da composição". São deste último os trechos que reproduzo aqui:

I

Saio do meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

...

V

Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu,
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louco
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

As pessoas nunca estão atentas o bastante.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

(Para Caetano)

Ontem vi a Judy Garland na TV. Foi muito rápido, eu estava zapeando e de repente encontrei aqueles olhos enormes num canal qualquer cantando uma canção que eu não conheço. Ela parecia tão frágil, tão exposta, tão triste. Era uma canção muito triste. Sua voz se espalhou pela sala e a minha casa pareceu menos silenciosa que de costume. Ela cantou por alguns minutos e passou os braços em volta do corpo como costumava fazer, depois se despediu antes que sua imagem desse lugar a outra, mais outra e outra.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Há alguns dias vi um caderno lindo, com capa de tecido e folhas grossas amareladas pelo tempo. Não havia linhas nem margens e eu imaginei nele um traço livre, muito longo, que aos poucos formasse um desenho ou uma palavra qualquer. Tive muita, muita vontade, mas acabei não comprando.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Agora o blog é público, finalmente...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Ontem tomei um café com a Rafaela. A sensação de estarmos juntos continua igual, mas nós estamos tão diferentes.
Estou há três dias em Monte Sião.

Havia me esquecido sobre como gosto de algumas coisas daqui, principalmente do relevo, das montanhas que cercam a cidade e se espalham como ondas no mar, ondas nos “mares de morros”. Não me lembrava mais do céu daqui nem da cor das folhas da árvore que fica em frente à minha casa. Essa casa que tem um cheiro tão especial, um cheiro bom que eu só percebo nos primeiros dias, antes de me acostumar e esquecê-lo mais uma vez.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

É estranho ler as postagens anteriores. Tudo me parece forçado, pretensamente poético, ruim. Acho que desaprendi a escrever. Mas ainda vou reaprender. Preciso reaprender.

Aconteceu muito rápido. De uma hora para outra o segredo se tornou uma fábula triste e sem graça. 

Às vezes é impossível saber quando a omissão começa a se tornar mentira. 

(Com coisas de Caio Fernando Abreu e um pessimismo excessivo que me aflige nas madrugadas)


O menino não tinha medo dos fogos de artifício.
 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009


Bruno entra calmamente em casa, caminha até o quarto dos pais e os vê dormindo por uma fresta da porta. Depois segue para o banheiro, acende a luz, pára em frente a pia e fica olhando olhando as marcas vermelhas em seu pescoço diante do espelho. Após alguns instantes ele vai até o box e abre o chuveiro. 

Bruno deixa que água escorra pelo seu corpo enquanto afaga a própria nuca.

Ele sorri e fecha lentamente os olhos.

(Retirado de "O que resta é apenas a lembrança")


quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


Hoje quando ouvi mais uma vez "Foi isso que ela disse!" fiquei arrepiado. Aos poucos a dor de cada uma delas foi se tornando minha, as suas histórias passaram a fazer parte do que eu sou. Mesmo que a câmera de "Jogo de cena" quase não se mova o filme agita algo aqui dentro. 


terça-feira, 6 de janeiro de 2009


Túlio e Maria Andrade 
Laika e o cachorrinho morto
e os cachorrinhos viventes 
Hércules e Íficles
Amra Fiama e Elisabeth
e o sexto filho irmãozinho
por conceber 
e as canções das crianças mortas
mesmo mal cantadas
ou sobretudo quando
mal cantadas
não morrem nunca
em cada instante 
deste mundo
e do outro
(esta é a montanha 
que vai ao sermão
dar graças ao irmão
e a Deus)

(Adília Lopes em "A continuação do fim do mundo")


segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


Na tarde do dia 02 fomos ao Estreito.

No começo da noite saímos de carro, pulamos o muro da igreja e depois brincamos no escorrega do barco de madeira. Eu senti um pouco de frio, mas não me importei, o barulho da água me fazia bem.

Quando nós voltamos já era madrugada e estava chovendo.


Eu agora tenho duas certezas:

Não sou uma jacona.

É possível descer a duna correndo e entrar no ônibus, mesmo que o tempo pareça escasso.


Primeiro o Gui pegou a minha mão e nos levou para ver a areia. 

Depois nos deu algumas conchas que pareciam chicletes mastigados.

Por fim  nós seguramos as suas mãozinhas e o erguemos por alguns metros, como se ele pudesse voar. Assim que seus pés tocaram o chão ele pediu: de novo! de novo!

Ele escreveu na areia, perto da água, Aline Elisa Caetano Felipe.


A vontade de recomeçar a escrever surgiu na madrugada do dia primeiro de janeiro enquanto eu esperava pelo sono que não demorou a vir.

O blog antigo morreu há cerca de sete meses. Felizmente pouquíssimas pessoas chegaram a ler o que estava escrito nele.

O blog novo será bem diferente. Como o próprio nome diz trata-se apenas um de "caderno de notas", uma reunião de pequenos escritos.

Espero que ele ajude a minha memória que insiste em se tornar cada vez mais imprecisa.