quinta-feira, 2 de junho de 2011

Às vezes, tomando sorvete, começo a pegar colheradas cada vez menores com medo de que o pote acabe. Quando gosto muito de um livro faço a mesma coisa, passo a racionar as porções, contar as páginas, reler os parágrafos mais bonitos, enfim, faço de tudo para evitar a última linha. Isso é muito difícil, porque em geral quando gosto demais de um livro quero seguir lendo até alcançar a última página. Com Tristano Morre do Antonio Tabucchi tem sido assim, quero ler mais e ao mesmo tempo não quero que ele acabe de jeito nenhum. Mas hoje o Tabucchi foi muito generoso comigo, além de repetir de maneira idêntica um trecho lindo do Está ficando tarde demais ele me presenteou com esse parágrafo maravilhoso que eu já reli muitas, muitas vezes e que até agora conseguiu evitar que eu siga rumo à última página.


“Vou ser sincero, antes de você chegar estava convencido de que lhe contaria tudo a respeito de Mavri Elià, nunca ninguém falou dela, e felizmente você também a ignora no seu livro... e dizia comigo mesmo que voltaria a equilibrar as coisas. Que tolo, como se tivesse que reequilibrar alguma coisa na vida... e afinal já não me agrada, Mavri Elià pertence apenas a Tristano, por que eu havia de dá-la a você, você não a merece... quando muito lhe direi algumas coisas essenciais, me limitarei aos chamados fatos. No entanto o que significam os fatos?... mas vamos então aos fatos... por exemplo, quando desapareceu... quando se findou, como diriam os que usam expressões tipo assiste-me o dever ou sentidos pêsames. Disparates, as pessoas não morrem, assiste-me o dever de informar, apenas ficam encantadas... como disse um escritor que você devia conhecer, ficamos encantados por aqueles que nos amam, os que nos amam muito muito muito, e pairamos no ar a meia altura como uns balõezinhos, mas ninguém nos vê, vêem-nos apenas aqueles que nos amam, mas aqueles que nos amam muito muito muito, e eles, erguendo-se na ponta dos pés, com um ligeiro impulso, um pulo de nada, agarram-nos pelas pernas que, entretanto, já são feitas e ar e puxam-nos para baixo, não nos largam, para que não recomecemos a voar, a levitar, mas dando-nos o braço seguram-nos mais rente ao chão, tão rente ao chão quanto eles próprios, como se não tivesse acontecido nada, tal como em certos faz-de-conta da vida, por conveniência social, para não se fazer feio à frente do dono do armarinho ou da tabacaria, que o conhece desde sempre e diria coisa estranha este sujeito passeando de braço dado com a mulher e ela a meia altura... E foi o que sucedeu a Tristano...”

(Tristano Morre, Antonio Tabucchi citando João Guimarães Rosa)

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