quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As outras crianças apontaram para o menino que não podia caminhar nem falar direito e começaram a imitá-lo. Distorciam a voz e mancavam de maneira forçada. Tudo isso porque ele estava andando depressa demais, ou então porque mais cedo ele havia chorado com medo do escuro. Não consigo ter certeza. As piadas aumentaram num frenesi assustador até que o menino, André, esse era o seu nome, voltou a chorar. Então eles irromperam em gritos. André chorava cada vez mais. Quis chorar também, quase em solidariedade, mas não tive coragem, não soube como agir. As professoras constrangidas fingiam que a situação não estava acontecendo e caminhavam apressadas conduzindo a turma rumo à saída. Tive medo daquelas crianças, de mim, do que podemos ser. Segui pela tarde com o choro engasgado e a imagem de André. Segui ouvindo os gritos.

...

Há alguns anos assisti numa aula de História “O senhor das moscas”. Quando o filme acabou, não me lembro bem porque, eu e Rafaela fomos até a parte de trás da escola. Ela chorou copiosamente. Nunca entendi aquele choro. Os gritos de hoje a tarde me fizeram sentir a mesma coisa que senti naquela manhã. Continuo sem entender aquele choro, sem saber como agir.

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