segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Passei os últimos dias lendo João Cabral de Melo Neto e voltei inúmeras vezes a dois poemas, "Tecendo a manhã" e "Psicologia da composição". São deste último os trechos que reproduzo aqui:

I

Saio do meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

...

V

Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu,
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louco
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.

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