Passei os últimos dias lendo João Cabral de Melo Neto e voltei inúmeras vezes a dois poemas, "Tecendo a manhã" e "Psicologia da composição". São deste último os trechos que reproduzo aqui:
I
Saio do meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez, como a camisa
vazia, que despi.
...
V
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu,
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louco
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.
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